Menino Loiro, abraça quem te chama! Desde manhãzinha, as meninas dos olhos vão desafiando o sol: - Acorda, preguiçoso! Afasta as mantas escuras, Menino Loiro! A manhã foi decorrendo… pelo começo da tarde, terminado o almoço, veio cumprimentar-me: espreitou pela janela, espalhou-se no chão da sala e eu pulei de alegria! - Vamos visitar o mar? Não quis. De repente meteu-se na cama outra vez. Ficaram muito zangadas, as meninas dos meus olhos! Para esconder a tristeza e alguma gota salgada, gritaram: - Anda daí, dorminhoco! Vamos para a rua brincar! Mas ele fingiu-se mouco! Nem se portou mal de todo: mandou o frio vadiar… o ar está doce e sereno, convidando a passear… - Menino Loiro!!! Menino Loiro!!! A tarde vai embalada no ripanço do relógio: o dia finda num instante, a noite custa a passar. - Ainda é tempo, vem! Agitam-se as meninas dos meus olhos, cativas, cansadas de tarefas maçudas como a de tomar remédios a horas. Têm saudades de ar, de azul, de flocos de algodão dançando ballet no céu… e do Menino de Oiro sorrindo, fazendo abrir as flores, descerrando os gomos impacientes por vestir os ramos… A relva ainda lamacenta está pronta para rebentar mas os baloiços do parque continuam vazios e os meninos que esqueceram a magia de inventar brinquedos, têm de se entreter com os que os adultos lhes dão, onde há murros, empurrões, batalhas, vencedores e vencidos, uma discórdia tamanha que não sonham os meninos… Querem é correr, rebolar, jogar à bola, ao apanha, sentar-se na erva a cantar! Menino Loiro, porque demoras tanto? Acaso andas carregando lenha para a fogueira com que secarás os campos no verão? Bem sei que não tens culpa, amigo… culpa, tenho-a eu! As meninas dos olhos revêem tantas memórias de sede e de chamas que as lágrimas acodem, tentando dissolvê-las. Menino Loiro, enquanto és meigo, vem dar-me um abraço e traz alegria e esperança ao sofrido coração!
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